Para pensar o tempo

 

“Até as palavras que agora dizemos

o tempo, em sua voracidade,

já levou embora

e nada retorna.”

 

Odes de Horácio

 

 

Quando eu penso no tempo, me vem à cabeça a fantasia de um dia extremamente organizado, em que as coisas seriam feitas de forma harmoniosa, com o tempo proporcional às tarefas realizadas e, ao final desse dia, eu estaria tranquila para abrir um livro e desfrutar desse momento só meu. Agora, quando eu sinto o tempo de fato, me vem uma sensação de atropelo com tudo que eu preciso fazer profissionalmente e pessoalmente, a lista infinita de coisas que vão sendo jogadas para o futuro, como se o tempo futuro fosse maior do que o tempo presente. No fim desse dia real só encontro exaustão e nem sempre a leitura tem espaço.

 

Acredito que essa realidade seja comum, pois na quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 47% dos entrevistados disseram que não leram por falta de tempo. Que tempo é esse? E como nos relacionamos com ele no dia a dia e, consequentemente, nas nossas leituras?

 

O tempo de leitura parece escapar de forma vertiginosa e fiquei por dias tomada por essa diferença entre o pensar e o sentir o tempo. Comecei uma pequena pesquisa sobre essa questão, resgatei um livro que li no ano passado, chamado “Por que o tempo voa” e fui colecionando outras referências para questionar o que fazemos do tempo, ou melhor, o que o tempo tem feito com a gente?

 

Quando comecei a procurar materiais sobre o tempo, a primeira lembrança que me veio foi aquele discurso de José Mujica, ex-presidente uruguaio, falando sobre como pagamos as coisas não com dinheiro e sim com o nosso tempo de vida:

 

 

 

 

É interessante pensar que o conceito de tempo parece sempre estar atrelado a algo exterior a nós, ao relógio ou ao dinheiro, na clássica frase: “tempo é dinheiro”. E como é algo medido de forma externa, acabamos sempre elaborando o tempo como algo a ser controlado. E não estou falando que o tempo não é fato. Sim, ele é um fato e passa. E talvez, o que nos reste é questionar como ele passa. E como nós o sentimos.

 

Tenho uma sensação muito diferente todas as vezes que abro um livro. Há dias em que cinco minutos de leitura parecem intermináveis e sofríveis, o corpo não se entrega e a cabeça também insiste em sair do livro para outras tarefas. Já em outros dias, me entrego à leitura de tal forma que quando me dou conta já se passou bastante tempo e eu nem percebi. Questionando essa qualidade de leitura, ou seja, como eu ocupo o meu tempo de leitura de formas tão distintas, me lembrei do “Por que o tempo voa”, em que Alan Burdick nos aponta que:

 

Uma chave para compreender o que o tempo é, fisiologicamente, é saber que, quando falamos de tempo, podemos estar nos referindo a qualquer uma das várias experiências distintas, inclusive:

  • Duração: a capacidade de determinar quanto tempo passou entre dois eventos específicos ou de estimar com precisão quando vai ocorrer o próximo.
  • Ordem temporal: a capacidade de discernir a sequência em que ocorrem os eventos.
  • Tempo: a capacidade de discriminar entre o passado, o presente e o futuro, e a compreensão de que o amanhã fica numa direção temporal diferente da do ontem.
  • A “percepção da agoridade”: a sensação subjetiva de que o tempo passa por nós ‘bem agora’, o que quer que isso seja.

Basta dizer que as discussões sobre o tempo muitas vezes se tornam confusas porque estamos empregando uma só palavra para descrever uma experiência que tem muitas camadas; para um profundo conhecedor da ciência, tempo é um nome tão genérico como vinho.”

 

E com isso, me questiono se a resposta da falta de tempo, ou do tempo arrastado e sofrido ou do tempo que voou e nem sentimos quando nos referimos a leitura, também não pode ser pensado em camadas de acordo com o que nos propomos a ler. Parece que ficamos presos nessa “medição” do tempo em termos numéricos, de quantos livros lemos em um ano, quantas horas lemos por semana, em quantos grupos de leitura participamos, enfim, parece que a única medição possível é feita através dos números. Enquanto que, na verdade,  a leitura é uma atividade com as palavras.

 

Quais os parâmetros possíveis para uma medição de tempo de leitura, colocados em palavras e não números? Somos capazes de nos entregar a um livro e uma xícara de café ou chá e nos esparramar no sofá, sem nenhum aparelho de medição do tempo, apenas as sensações no corpo e as emoções sentidas e ao final nomear essa experiência? Essas percepções não seriam uma medição possível? Uma métrica subjetiva para variar um pouco.

 

Na psicanálise, o tempo do inconsciente não é um tempo cronológico, aquele que passa, mas ele se refere sempre a um “outro tempo”. Os tempos se misturam e, passado, presente e futuro podem estar em um só lugar no momento do sentir, no momento do narrar. Quando relatamos algo que nos aconteceu faz muito tempo ou ficcionamos o nosso desejo lá para frente, fazemos o presente-passado ou o presente-futuro aparecerem. E é nesse tempo misturado que as nossas “questões” são elaboradas, ressignificadas e se torna possível seguir essa escrita própria.

 

Quando pensamos na literatura, a presença do tempo também não é linear, muitas vezes o autor nos obriga a avançar anos e séculos e depois nos faz voltar. Estamos sempre nesse espaço onde o passado, o presente e o futuro podem se presentificar, nos tomar e envolver. Nos livros a passagem de tempo pode se dar em uma frase e alguns sentimentos podem transcorrer em várias páginas ou em um livro todo. Esse ir e voltar, condensar e estender fazem com que a qualidade do tempo na literatura também se faça em “outro tempo”.

 

Como Carlo Rovelli colocou em seu lindo e profundo livro sobre o tempo, “A ordem do tempo”:

 

“Somos este espaço, esta clareira aberta pelos vestígios da memória dentro das conexões dos nossos neurônios. Somos memória. Somos saudade. Somos anseios por um futuro que não virá. Este espaço aberto pela memória e pela antecipação é o tempo, que às vezes pode ser que nos angustie, mas que no final é um dom.”

 

Como sair desse tempo cronológico e linear para vivenciar esses outros tempos? E, como o barato de pesquisar, ler e escrever é experimentar no corpo, na própria vida, estou eu às voltas com a tentativa de ocupar esses “outro tempos”.

 

Não termino aqui essa reflexão…

Que você possa tirar algum tempo para ocupar essas referências…

E em outro tempo continuo…

Até breve…

 

Carla Paiva

 

 

Outras leituras…

 

Por que o tempo voa – Alan Burdick

                                                

A ordem do tempo – Carlo Rovelli

 

Em busca do tempo: interpenetrações entre psicanálise e literatura.

 

 

 

Outros caminhos…

 

 

 

 

 

 

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