Você lê todos os dias?

Geralmente, as respostas rápidas que escuto são:

– Não, só de vez em quando, pois estou sem tempo…

– Não gosto de ler, tenho sono…

– Ler é muito difícil, não consigo me concentrar nem dez minutos…

Quando escuto essas respostas e suas variações, percebo rapidamente que o imaginário da leitura para a maioria das pessoas ainda é muito rígido. Ao pensar em leitura, costuma-se imaginar um processo que envolva necessariamente um texto escrito, seja pelo hábito de ler livros, jornais, revistas… Mas hoje, quero trazer aqui uma provocação com o objetivo de ampliar esse conceito para além das palavras e comprovar que todos nós estamos lendo o tempo todo com todos os nossos sentidos, por meio dos elementos que nos envolve externamente e internamente. Seja ao observar cenas cotidianas, ao resgatar uma memória relevante, ao se deparar com algo novo ou até mesmo no simples ato de atravessar a rua. Todos esses momentos desencadeiam leituras diversas e acredito que ao tomarmos mais consciência sobre esse processo, somos capazes de produzir mais sentidos, nos conhecermos melhor e evoluir tanto pessoalmente como profissionalmente.

Isso é o que chamo de leitura ampliada!

O educador Paulo Freire já apontava essa dimensão ampla da atividade de leitura, quando escreveu um artigo chamado “A importância do ato de ler”, que diz:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.”

Mas, então porque as respostas das pessoas quanto a leitura são todas referentes à leitura de texto escrito? Como se leitura fosse só a decodificação de palavras expressas e não a experiência da palavra vivida. Acredito que todas essas respostas se relacionam com o imaginário do que é ser um leitor voraz, aquela ideia de que a pessoa que lê é aquela que ama ler, que está rodeada de livros o tempo todo e que fica horas a fio lendo sem parar. E, não estou dizendo que esse tipo de leitor não existe e que essa experiência de leitura não seja ótima para a pessoa que descobriu que essa é a sua maneira de ler. Mas, faço aqui uma comparação com os esportes: eu não preciso ser uma atleta profissional para gostar de me movimentar ou para compreender a importância de ter atividades físicas no meu dia a dia. Então, parece que quando falamos de leitura estamos sempre usando uma régua irreal e, se o desafio é impossível, não existe sentido nem em começar. E, assim, continuamos perdendo muitas pessoas no caminho…

Vamos então voltar à pergunta do título e te convido agora a mergulhar em um dia da vida da nossa personagem fictícia (vamos chamá-la aqui de Léia) com o objetivo de localizarmos a quantidade imensa de leituras que fazemos. Preparados!?

• Léia acorda com o despertador tocando regularmente às 7h e às vezes o primeiro pensamento que vem a ela é: preciso de mais meia hora de sono! (Leitura #1 em que ela já relaciona sua qualidade de vida à quantidade de horas dormidas, imaginando se conseguiria dormir ainda mais cedo…)

• Em seguida, ela abre a janela e confere se o sol saiu ou se está nublado. Logo depois, confere a previsão do tempo completa no celular para saber qual roupa deveria usar e se leva guarda-chuva ao sair. E neste exato momento quando olha para a temperatura Léia pensa: não é possível ser 07:00 e já estar 29 graus em SP! (Leituras #2 e #3 em que há uma mistura sobre questões envolvendo mudanças climáticas e como isso segue afetando sua vida, preocupação em não repetir uma roupa, pensar na agenda de reuniões do dia e interpretar qual seria a opção mais adequada…)

• Prepara seu café da manhã, enquanto escuta uma música ou um dos podcasts que adora, e começa a repassar sua agenda de trabalho pensando no dia que virá e escolhendo onde vai concentrar suas energias. (Leitura #4 focada nos hábitos alimentares, em que relembra da última consulta com a nutricionista, examina se suas escolhas estão de acordo com a dieta e já prepara mentalmente uma lista de compras da semana…)

• Até  o escritório ela leva quase 45 minutos – para percorrer 2km. Ao chegar, Léia cumpre toda a agenda e recebe o novo funcionário que está começando hoje na empresa. (Leituras #5 e #6 em que ela reavalia o custo-benefício de ter um carro em uma cidade como São Paulo, repensa aquela ideia de comprar uma bike elétrica e avalia a segurança do percurso. Além disso, percebe como repara na roupa e na aparência do novo funcionário, revisita seus preconceitos e se programa para como apresentará o novo colega ao restante do time…)

• Léia gosta de fazer exercícios na hora do almoço, pois tem a sensação de que quebra o dia, e volta com mais disposição para o período da tarde. Ela trabalha muito o foco durante os exercícios, para além de movimentar o corpo, trabalhar a mente. E o almoço sempre acontece depois do exercício. (Leitura #7 em que Léia volta a se concentrar em sua saúde, relembra os resultados do último check-up e observa com atenção nos exercícios que seus colegas de academia estão fazendo…)

• Durante a tarde, Léia coordena reuniões de planejamento anual, passando por discussões de orçamento, prospecção de clientes e desenvolvimento de sua equipe. Em seu atual cargo, ela tem uma rotina intensa, o que exige estar disposta a atuar em múltiplas frentes do negócio. (Leitura #8 em que ela enxerga a evolução recente de sua carreira, revista episódios de machismo enfrentados e analisa se tem em mãos todas as ferramentas que necessita para ter sucesso esse ano…) 

• Depois de um dia cheio, Léia chega em casa e sempre escolhe cozinhar o jantar junto com sua filha, pois esse é um momento de conexão, higiene mental e uma atividade muito sensorial. É o momento em que sente cheiros, repara nas cores dos alimentos e usa as mãos. (Leituras #9 e #10 em que Léia volta a se conectar mais consigo mesma, e mergulha no universo de sua filha, que está terminando a faculdade de moda e cheia de sonhos com um mundo mais sustentável e igualitário. Como seu trabalho é muito cerebral e emocional, sentir o corpo no fim do dia tem sido um caminho prazeroso…)

Como vocês podem ver, passando apenas por um dia comum, produzimos vários sentidos, encontramos vários temas, pessoas e pontos de reflexões. Perceber que estamos lendo a nossa rotina diariamente faz com que possamos aumentar a compreensão sobre nosso universo emocional, ampliar o repertório diante dos assuntos que nos cercam e desenvolver nosso pensamento crítico para lidar com tanta informação e estímulos. Assim, o primeiro passo é perceber que a leitura não está apartada do nosso dia a dia, a leitura das palavras que vivemos é que nos leva a leitura das palavras escritas. Mas, é curioso pensar que usamos muito pouco essa ferramenta que é a leitura de forma intencional.

Mas afinal, onde podemos treinar essa leitura ampliada? Onde ensaiar essa habilidade?

Gosto muito de uma cena que a antropóloga Michèle Petit relatou no seu livro “Ler o mundo – experiências de transmissão cultural nos dias de hoje”: 

“A importância da leitura raramente é explicitada, como se fosse óbvia. Todavia… Henriette Zoughebi, que por muito tempo dirigiu o Salão do Livro Infantojuvenil de Montreuil, contou-me certo dia uma cena a que assistira: ‘Um menininho observava sua professora mergulhada em um livro; intrigado, ele se aproximou dela e fez a seguinte pergunta: ‘Tia, por que você está lendo, se já sabe ler?”

Parece que somos esse menininho, acreditando que depois que aprendemos a ler não se faz necessário praticar. E não nos damos conta que praticando essa atividade de leitura ampliada de forma mais intencional e consciente estamos desenvolvendo habilidades importantíssimas. Destaco três habilidades que desenvolvemos praticando a leitura das palavras vividas e também a leitura das palavras escritas: escutar, perguntar e imaginar.

  1. Escutar

O que acontece quando escutamos de fato? Tem quem não ouça, mas que escute lindamente, e há quem ouve muito bem e não consegue escutar quase nada. Quando falamos de ouvir estamos falando do sentido da audição, da capacidade de captação do órgão ouvido, já quando falamos de escutar, trata-se da produção de sentido, de um processamento e compreensão das palavras, de um trabalho de linguagem.

Quantas vezes no seu dia você de fato se escuta? Ou só se deixa levar pela barulheira e distração e finaliza o dia nem mesmo sabendo direito o que aconteceu? Acredito que aqui é muito importante marcar que o trabalho da escuta não começa ao escutar o outro. Começa em primeira pessoa, ou seja, se a capacidade de escutar a si mesmo não for desenvolvida, dificilmente você irá conseguir escutar o outro. Talvez você ouça o outro, mas escutar mesmo, é bastante difícil. E afirmo isso porque o escutar como vimos se trata de um processamento e compreensão das palavras, não se trata de um contato com o outro, em que o outro me entrega uma informação, um sentimento ou uma ideia e isso vira meu, mas de um processo interno de produção de sentido do que escutei. O que eu faço com isso que li na pessoa? Vou precisar dar um encaminhamento a isso com aquilo que eu sou e com as experiências que vivi. 

  1. Perguntar

Qual o espaço que tenho para treinar a elaboração de perguntas? Perguntas simples, bobas, confusas, difíceis. O mundo muitas vezes nos dá a impressão de que ao ter as respostas na mão já se cumpre o propósito esperado. Independente se nesse processo você só ficou com as respostas decoradas na mão, sem tempo ou condições de compreender as questões que estavam sendo colocadas. O pote de ouro parece conter apenas as respostas e cada um acha a sua maneira para operar nessa lógica, limitando assim o processo de aprendizado.

Pelo nosso nome “Como Leio” fica claro o nosso interesse pelo processo, o como está na nossa identidade, não queremos trabalhar a linguagem apenas de forma conceitual, queremos sim, encontrar um como chegar em uma pessoa, um time, um tema ou em uma questão complexa. Formular perguntas diante de uma situação, uma pessoa ou um texto, é se relacionar com a questão e abrir chance de descobrir mais o que se sabe e o que não se sabe para só a partir dessa localização elaborar quais os próximos passos.

  1. Imaginar

Quando falo do lugar de imaginar estou falando do lugar de uma atividade mental que  ocupa alguns territórios: linguagem, memória e antecipação. Sobre o primeiro, a linguagem, gosto muito de uma ideia do professor Jorge Larrosa (professor espanhol de Filosofia da Educação) que diz que não pensamos com genialidade, pensamos com as nossas palavras, e com essas palavras que imaginamos, encontramos imagens, descobrimos sentimentos, descortinamos desejo, temos um universo interno imenso para ser explorado a partir das palavras.

Mas para além da linguagem, a imaginação também ocupa o território da memória, porque é no trabalho de edição que fazemos dos momentos vividos que criamos as nossas memórias. As memórias criadas não são apenas lembranças, não são fragmentos do passado, elas são ferramentas ativas para nossa imaginação. Porque se tenho uma memória de um lugar específico, posso imaginá-lo maior, menor, com mais cor ou menos; se tenho uma memória de um sentimento que vivi, posso imaginar a dor de sua perda ou posso imaginar caminhos para esse sentimento e o que posso ser a partir dele.

Nossas memórias são coleções que fazemos e tudo isso é usado quando me coloco a imaginar uma saída para alguma dificuldade, ou quando preciso mostrar para o outro o que se passa dentro ou localizá-lo do que acontece fora.

E por último, a imaginação trabalha com o território da antecipação como definiu muito bem o professor Felipe Fernández-Arnesto. Quando imagino, eu posso antecipar algumas coisas, algumas alegrias, alguns desafios, e quando trabalhamos com desenvolvimento de pessoas, precisamos usar a imaginação para antecipar. Antecipação aqui é a capacidade de ver o que ainda não existe, de antever dificuldades e também de criar oportunidades. Antecipar não se trata de só se defender, mas de poder se imaginar no futuro.

Espero ter conseguido mostrar o quanto o universo da leitura ampliada é rico e nos coloca em constante movimento de aprender sobre nós e sobre o mundo. E o quanto de fato estamos lendo o tempo todo, com nosso corpo inteiro e produzindo sentidos.

Assisti no fim do ano passado a uma exposição do artista Hélio Oiticica no CCBB de Belo Horizonte e fiquei encantada em acessar a linha do tempo das suas obras. Ali, ficou bem nítido que no início de sua trajetória, as formas que ele escolhia eram placas de madeira colocadas na parede e que, com o decorrer dos anos, essas placas começaram a ganhar volumes, texturas, cores, passaram a ser penduradas no teto ao invés de estarem na parede, produzindo sombras diferentes no chão. Com isso, Oiticica ampliava o espaço da obra, já que o espectador podia passear em volta da obra e às vezes até interagir. No final do percurso, sua arte produzia o próprio espaço e nós passamos a usar o nosso corpo todo para acessar a arte e interagir com ela. Saímos da passividade de sermos meros espectadores para a criatividade de ser co-autores.

Penso que com a leitura ampliada acontece esse mesmo movimento: podemos sair das palavras escritas para dar volume às palavras vividas no corpo. Como nos ensinou lindamente Oiticica, “o museu é o mundo, é a experiência cotidiana.” E produzindo uma licença poética, eu diria que “a leitura é o mundo, é a experiência cotidiana.”

Boa leitura de si e do mundo!

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